03.12.2015 | Raul Jungmann

03.12.2015

FOLHA DE PERNAMBUCO

OPOSIÇÃO COMEMORA ABERTURA DO PROCESSO

PARA oposicionistas, postura de Cunha deverá ser aprovada pela população nas ruas. Movimentos anti-PT organizam novos protestos

MARCELOMONTANINI Com agências
TAUAN SATURNINO Com agências

Derrotado nas eleições preidenciais de 2014 para a presidente Dilma Rousseff (PT) e defensor do impeachment, senador Aécio Neves (PSDB-MG) afirmou, ontem, que o processo de impeachment deflagrado pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha (PMDB-RJ), é legítimo não e pode ser classificado como tentativa de golpe, como dizem os governistas. Opositores corroboram que é cedo para cravar a destituição da presidente, porém um cenário prolongado seria ruim para a população.

“Temos denunciado as ilegalidades do Governo, as ilegalidades cometidas na campanha eleitoral, as irresponsabilidades cometidas até mesmo hoje, aqui, ao alterar a 25 dias do final do ano a meta fiscal proposta pelo próprio Governo esse ano. Nós apoiamos a proposta de impeachment para que ele tramite normalmente. Não posso antecipar resultados, mas o nosso sentimento é de que esse tema será debatido no Congresso Nacional com os olhos na sociedade”, declarou o tucano.

O senador Ronaldo Caiado (DEM-GO) acredita que a população vai respaldar a decisão do Congresso Nacional. “Uma vez autorizados a comissão e o encaminhamento da votação ao plenário da Câmara, teremos um momento extremamente alentador. Estamos devolvendo à Câmara a prerrogativa de investigar a presidente. As pessoas vão acreditar na segurança jurídica, na perspectiva de um plano de governo, na escolha de ministros capacitados e em uma unidade política capaz de reerguer o País dessa crise”, avaliou.

Ao desembarcar ontem em Brasília para participar hoje da convenção nacional do Democratas, a deputada estadual Priscila Krause (DEM-PE) se manifestou pelas redes sociais. “Ao Congresso, omeu desejo e a minha esperança de que o processo aberto hoje – muito mais que fruto de quaisquer chantagens pessoais – seja conduzido com serenidade, responsabilidade e faça história, baseado em nada além que premissas jurídicas que devem sempre conduzir uma democracia forte”, disse.

O deputado federal Daniel Coelho (PSDB-PE) disse que o “importante neste momento é passar o Brasil a limpo”, contudo, acredita ser precoce afirmar que Dilma será cassada. “Vai prevalecer a vontade da maioria, mas a saída de ambos [Dilma e Cunha] será bom para o País”, defendeu. O vereador tucano André Régis destacou que este processo aberto por Cunha desencadeará numa maior pressão política e dificuldade na recuperação econômica. “Pior cenário é ela [Dilma] não cair, o efeito do sofrimento [da população] será atenuado. Acredito que ambos [Dilma e Cunha] devem cair, mas Cunha está caindo atirando”, ponderou.

Entretanto, nem todos opositores se manifestaram favorável ao processo de impeachment como instrumentalizado pelo presidente da Câmara. Cumprindo agenda em Israel, o deputado federal Raul Jungmann (PPS-PE) criticou o fato do presidente da Câmara ter se utilizado do cargo para usar um elemento constitucional da mais alta gravidade em defesa própria. “Primeiramente, nós não deveríamos aceitar essa medida [processo de impeachment]. Entendo que o impeachment precisa de um fato jurídico, mas acho que antes de decidir isso nós temos que afastar Eduardo Cunha”, afirmou.

Ex-candidata a Presidência da República pelo PSOL, Luciana Genro usou o Facebook para avisar que o seu partido não iria corroborar com a decisão do presidente da Câmara. “Impeachment nascido da chantagem de Cunha não terá apoio do PSOL”, escreveu.

 

 

BLOG DA FOLHA

JUNGMANN CRITICA DECISÃO DE CUNHA E PEDE SUA SAÍDA

O deputado Raul Jungmann (PPS) criticou a decisão do presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PMDB), de deflagrar o processo de pedido de impeachment da presidente Dilma Rousseff (PT). Segundo o parlamentar, o líder da Casa usa de maneira irresponsável a prerrogativa.

“Ele está utilizando o cargo dele, usando elemento constitucional, da mais alta gravidade na sua defesa. Por isso, independente dos motivos que já estão esse é um ato da parte dele, de um presidente imoral, inteiramente desqualificado”, comentou Jungmann, ao Blog da Folha.

O pós comunista disse que não iria aceitar a medida de Cunha. Para ele, o Congresso deveria estar preocupado, neste momento, em afastar o líder da Casa.

“A minha posição é de, primeiramente, nós não deveríamos aceitar essa medida, essa tomada de posição do presidente da Câmara. Eu entendo que o impeachment da presidente precisa de um fato jurídico, mas acho que antes de decidir isso nós temos que afastar Eduardo Cunha”, afirmou.

 

 

O GLOBO

ARTIGO: DEUS E O DIABO NA CASA DA MÃE JOANA

Cunha negou por três vezes que estivesse feliz em abrir o processo de impeachment de Dilma

POR ANCELMO GOIS

Simão Pedro, por três vezes, negou Jesus. Eduardo Cunha negou por três vezes, ontem, que estivesse feliz em abrir o processo de impeachment de Dilma, o que é uma deslavada mentira. A comparação termina aí, até porque de santo o presidente da Câmara não tem nada. Está mais para belzebu. O Brasil é que virou um inferno. Dos chamados três poderes, o Executivo e o Legislativo estão, como se diz na minha terra, mais sujos que pau de galinheiro.

O Legislativo, como disse outro dia o veterano deputado Raul Jungmann, virou uma casa de réus. Tanto o presidente do Senado como o da Câmara são acusados de se envolverem com a quadrilha que assaltou a Petrobras. Cunha, que deveria requisitar uma junta médica para analisar seu caso, periga ser inocentado por… excesso de provas.

Já Dilma desgoverna. Ela, para usar uma variante de uma frase de Carlos Lacerda, mata o pobre de fome e o rico de raiva. O seu segundo mandato tem 11 meses num corpo de Matusalém. É uma agonia sem fim. O país já renovou seu contrato com a crise por mais um ou dois anos. Na economia, ela pratica uma política econômica que detesta. Na política, segue o que mandam o PMDB e Lula. Este último, por sua vez, para dizer o mínimo, mostrou-se promíscuo com a coisa pública, o que é frustrante por tudo que ele representava como exemplo virtuoso da possibilidade de ascensão social no Brasil.

Resta o Judiciário, que tem sido, até agora, a salvação da lavoura. Ainda há juízes em Berlim… ou melhor, no Brasil. E não só Sérgio Moro, até porque a maioria de suas decisões é apoiada por outros tribunais mais graduados.

Desde que Pedro Álvares Cabral desembarcou que se diz que a lei é igual para todos. Nunca foi. A prisão de poderosos, com todo o respeito ao divino direito de defesa de todos, é uma novidade. Aliás, dizem que a história da corrupção por aqui começou com o português Fernando Noronha (1470/1540), que depois virou nome de ilha, que teria molhado a mão de alguém do governo português para conseguir o monopólio de exportação do pau-brasil. Faz sentido.